Fios de Nylon |

Carta para meu grande amor

Serra do Rosário, 7 de Setembro de 1946

Querida Inês.

Escrevo-lhe esta carta para dizer que tudo correu como planejado. O trem me deixou na estação de Três Pontas às 17:56 pontualmente. Peguei minhas bagagens com o recolhedor de bilhetes e o dei uma gorjeta pela gentileza em me ajudar a carregar todas aquelas sacolas. O aperitivo que tu fizestes com pão e atum estava divino, como não poderia ser diferente já que você o preparou com esmero e delicadeza de sempre.

As noites aqui são bastante frias, mas aquela coxa de lã e linho que costurastes para mim me aquece até o amanhecer. Passo os dias dormindo, pois aqui pouco trabalho se tem, mas seu Joaquim, o dono de uma vendinha simpática ali da esquina me prometeu sondar algumas oportunidades aos arredores da vila. Estou muito ansioso e animado com isso. Decidi que desta vez as coisas darão certo para que te orgulhes de mim e tenha muita satisfação de minha pessoa.

Consegui consertar o pé daquela cadeira velha que tanto lhe incomodava na hora de separar os feijões, lembro-me que tinhas dito que se eu não a arrumasse, encontrarmos outro mais bem dotado que o fizera. Tudo bem, não entendi ao certo o que dissestes, mas deve ter sido algo bem furioso não? Não sei se foi bem isto e com estas exatas palavras que me dissestes, já que minha cabeça anda tão fraca que mal me recordo da última vez que a vi brava comigo. Ainda está brava minha querida? Espero que não!

Perdoe-me por não lhe dar mais detalhes desta viagem incrível, pois já não me recordo bem dos acontecimentos destes últimos dias. Parece que quando durmo, os sonhos se alimentam de minhas memórias, e sempre que penso em escrever algo grandioso para lhe contar, as palavras somem como num sopro.

Ainda não entendi bem porque decidi partir e vir para esta cidade tão longínqua, mas espero que me perdoe, pois a cada dia que se passa eu me recordo cada vez menos de quem eu era, quem tu eras e o que já fomos um para o outro algum dia. Não culpe este pobre velho que nem o nome mais sabe escrever. Não queria viver ao lado da única mulher que amei esquecendo dia após dia quem é você. Isto não seria justo contigo. Mas saibas que mesmo que a lembrança seja apagada de minha mente, guardo todo o nosso amor em meu coração. E nos breves momentos de lucidez escrevo pra ti!

Por último, antes que eu me esqueça, não se preocupe se caso as cartas se cessarem. Não penses que lhe abandonei por descaso, só não quero que dediques mais a tua vida a cuidar de um velho esclerosado feito eu. Fique bem minha querida Inês.

Com amor…

Jornalista, mineira de Belo Horizonte, 31 anos e apaixonada por cinema, livros, música e fotografia. Não sou de muita conversa, pois prefiro me expressar através de textos. Nascida na era da internet, blogo desde 2008. Para saber mais sobre minha história clique em Autora.

2 Comments

  1. Rembrandt

    agosto 18, 2017 at 2:47 pm

    Nossa! Quem é o autor? Bem melancólico hein.. Mas muito boa a crônica.

    1. Carla Corrêa

      agosto 18, 2017 at 6:42 pm

      Eu sou a autora ❤️

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: