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Os Sertões – Um relato completo sobre a história geográfica e social do Brasil

Quando Euclydes da Cunha decidiu escrever Os Sertões, muitos pensavam que a obra era apenas um retrato fiel dos acontecimentos durante a Guerra de Canudos, mas não foi bem isto que eu interpretei em minha leitura. Muito pelo contrário, a sua cobertura da guerra, feita como correspondente do jornal O Estado de S. Paulo, contempla aspectos anteriores ao conflito ocorrido no interior da Bahia. Na verdade, Os Sertões é tida como uma obra prima justamente pela riqueza dos relatos colhidos por Euclydes, que ainda descreveu com tanta precisão a vida miserável dos sertanejos e de um personagem em particular: Antônio Conselheiro.

Tal primor se justifica pela bagagem de conhecimentos que o autor possuía. Além de jornalista e escritor, ele também exerceu funções no exercito brasileiro, bacharel em matemática, ciências físicas e naturais e mais tarde também exerceu funções como engenheiro.

Mesmo sendo uma obra prima clássica da literatura brasileira, a minha experiência com esta leitura não foi a das melhores. Apesar de ter uma linguagem rebuscada e muito meticulosa com os detalhes, isto não foi o principal motivo para que eu me arrastasse meses em sua leitura, mas sim devido ao teor da temática. Os Sertões narra não só o conflito em Canudos, como mencionei anteriormente, mas também traça um paralelo entre os acontecimentos que antecederam e culminaram na guerra e com isso, Antonio Conselheiro ganha papel de destaque no enredo e na minha antipatia.

Os Sertões não é o tipo de livro que eu leria por puro gosto, apesar de tê-lo lido espontaneamente, já que é uma obra clássica e eu tinha este dever. Mas não me agrada temas que abordem a miséria humana, a cólera social que a política brasileira impõe aos menos favorecidos, ao fanatismo religioso e político e novamente a pobreza. É tanta desgraça, é tanta secura trazido nos relatos de Euclydes que não sei como consegui terminar minha leitura.

A impressão que tive é de já ter presenciado esse tipo de história na vida real muitas e muitas vezes. Achei até muito semelhante os relatos dos acontecimentos da vida e morte de Conselheiro com nosso dia-a-dia político não muito distante. Na minha perspectiva, Os Sertões aborda nitidamente uma questão de vingança pela honra. O homem pobre do sertão que teve sua família destruída por um Coronel rico de posses que lhe jurou a morte. Depois do ocorrido, Antônio se voltaria contra o sistema da época, uma república recém-nascida, e decidira tornar-se o messias dos sertanejos pobres e desamparados pelo governo, e assim se auto proclamou líder religioso.

Não descarto esta leitura para quem ainda não a conhece, pois devemos tentar ao menos dar uma chance por mais árdua e pesada que seja. Os Sertões não está na minha lista de recomendações de livros que li e gostei, mas sim na lista de livros que devemos ler para compreender a nossa história passada e o contexto atual que vivemos, porque como eu disse, muitas das passagens desta obra refletem diretamente no que somos e ainda fazemos hoje como era feito antigamente.

Jornalista, mineira de Belo Horizonte, 30 anos e apaixonada por cinema, livros, música e fotografia. Não sou de muita conversa, pois prefiro me expressar através de textos. Nascida na era da internet, blogo desde 2008. Para saber mais sobre minha história clique em Autora.

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