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O perigo em ser muito "positivo"

Por que “focar no lado positivo” não é um conselho útil

Há tantos memes e citações que dizem “Seja positivo, não negativo. Concentre-se no lado positivo.” Eu nunca fui muito boa em ignorar os aspectos negativos e me concentrar apenas nos pontos positivos.

Em nenhum momento da minha jornada de amor próprio e autodescoberta aprendi a ignorar todas as minhas falhas, todos os meus erros, todos os meus arrependimentos. Em nenhum momento da minha jornada de compaixão aprendi a ignorar todas as vezes que alguém me machucou ou toda a destruição causada por abusos que sofri. Isso nunca pareceu certo para mim. E você sabe de uma coisa? Não foi necessário com que eu fizesse isso.

Vamos voltar para seis anos atrás quando eu estava olhando para o meu rosto sem maquiagem no espelho. Meus pensamentos disseram: “Feio. Horrível. Pálido. Olhe para essas manchas, olhe para essas olheiras. Repugnante. Revoltante. Coloque uma sacola na sua cabeça e se esconda.” Mas continuei me olhando.

Eu não conseguia não reparar em todas as marcas, lá estavam elas. Eu não podia me desprender das minhas olheiras. Lá estavam elas também. Eu também não conseguia me impedir de pensar que isso era repugnante e revoltante. Esses pensamentos estavam presentes em mim. E nenhuma quantidade de conversa interna positiva iria fazer com que eles desaparecessem.

O que aconteceu depois foi fascinante. Além de observar essas manchas e olheiras, também vi outra coisa. Eu vi meu rosto como pura informação visual – a maneira como eu percebia as cores e formas. Eu estava dando significado ao meu rosto sem perceber que eu estava vendo isso como algo sem sentido.

Esses momentos revolucionaram meu relacionamento comigo mesma. Eu não apaguei minha auto-imagem negativa. Acabei ao invés disso, acrescentando à ela uma nova perspectiva. Essa nova perspectiva equilibrou minha visão de mim mesma.

Eu acho que equilíbrio é a palavra chave. O que me incomoda sobre esse discurso de “ser positivo e ignorar os negativos” é que eu fui mentalmente abusada por pessoas que fazem exatamente isso. Elas se recusavam a ver como elas machucavam os outros. Elas concentravam-se apenas em suas boas intenções.

Uma certa dose de autocrítica, auto-julgamento e insegurança é absolutamente essencial. É o que nos faz pedir desculpas por ferir alguém. É o que nos faz melhorar as áreas de nossas vidas que estão precisando de trabalho. É o que nos faz questionar noções idealistas e romantizadas do mundo e ver as coisas claramente. O chamado “lado negro” é essencial. Não é ruim de jeito nenhum.

Alguns anos atrás, meu parceiro (na época) e eu estávamos em uma discussão. Ele estava muito irritado e o modo como ele estava expressando sua raiva para mim era extremamente desconcertante. Eu me senti vitimizada, oprimida, triste. E pensei: “Eu nunca faria isso com você.”

Mas então, algo aconteceu. Por trás da sua forma de se expressar, vi algo. Eu o vi tentando comunicar algo sobre o meu comportamento em relação à ele. Algo que era doloroso de enxergar. Um grande golpe no meu ego. E ele estava tentando me falar sobre isso. Ele estava tentando dizer: “Eu não faço isso com você.” Claro, ele não estava se comunicando da melhor maneira. Mas ele estava comunicando algo importante.

Sozinha, os sentimentos de vergonha e raiva de repente tomaram conta de mim. Meus pensamentos me disseram, “você não é uma boa pessoa. Veja o que você fez com seu namorado. Veja como ele tem sido paciente todo esse tempo com suas ações intoleráveis e veja como você o tratou por tentar falar sobre isso.

Extremo. Foi tudo muito extremo. E eu não conseguia fugir disso. Eu não consegui remover meu auto-julgamento, e não consegui remover meu ressentimento por suas palavras de raiva. Tudo o que eu pude fazer foi encontrar um equilíbrio.

Eu disse para mim mesma que só porque cometi erros não significa que sou uma pessoa ruim. Eu disse a mim mesma que poderia reconhecer que tinha espaço para crescer e ao mesmo tempo me respeitar como ser humano. Eu poderia fazer as duas coisas.

Pelo caminho há espinhos

Quanto a ele, eu podia admitir que ele tinha algo valioso para dizer e que sua comunicação precisava de trabalho. Eu podia ver nosso argumento como algo que continha dor ao lado de um feedback valioso. Não foi bom nem ruim. Foi os dois.

Esses momentos surgem para mim o tempo todo. No última vez que fui ao Brasil, tive algo furtado. Eu me senti irritada, nervosa, indignada. Eu não tentei parar todos estes sentimentos, eu me permiti senti-los. Continuei a explorar minha experiência até encontrar novas perspectivas sobre a situação. Então, ter algo meu furtado se transformou em uma experiência de aprendizado. Não porque ignorei o que sentia, mas porque equilibrei essa dor com lições.

A vida é paradoxal. Onde há alegria, há tristeza. Onde há controle, há rendição. Onde há fala, há silencio. Onde há destruição, há crescimento. Nós não precisamos ignorar o que chamamos de “lado negro.”. É uma parte essencial da vida e do jeito que as coisas são. Nós só precisamos adicionar consciência ao outro lado disso ou o que chamamos de “luz”.

Eu acho que isso é especialmente importante nestes tempos de agitação política e social. Quando tentamos substituir escuridão pela luz, o errado pelo certo, criamos uma guerra. Porque o que chamamos de lado negro e de errado existe por um motivo. As vezes, existe porque de alguma forma nos serve. As vezes, existe porque é um sintoma de algum problema maior.

Não importa o quanto tentemos triunfar e derrotar nossos inimigos (incluindo nossos inimigos internos), se não entendermos de onde eles vem, eles continuarão retornando em diferentes formas. Precisamos fazer paz, não guerra, e a paz vem da compreensão.

Meu perfeccionismo, que me destruiu por muitos anos, não foi um tumor maligno para cortar minha experiência. Foi um padrão útil. Claro, não ajuda quando estou olhando para o meu rosto ou meus erros. Mas como aprendi a abraçar a arte de aperfeiçoar continuamente algo (sem esperar que seja perfeito), tornei-me uma escritora melhor dentre outras coisas mais.

Meu auto-julgamento, não era uma doença. Foi coberto, mas não foi desnecessário. Minha capacidade de analisar criticamente as coisas me ajuda a expandir minhas perspectivas, abrir minha mente e entender melhor as pessoas. Minha capacidade de olhar criticamente para mim mesma me ajuda a trabalhar em mim mesma, a admitir meus erros e a melhorar constantemente.

Meus ataques de auto-aversão intensa e debilitante também não eram inúteis. Eles sempre tinham uma mensagem. As vezes eu não fazia uma pausa em meses. As vezes, eu estava ignorando minhas próprias necessidades, enquanto seguia os desejos das pessoas ao meu redor. As vezes, eu deixava minha ansiedade tomar conta por semanas e semanas, e minha cabeça ficava cansada. Eu percebo agora que, nos meus momentos de profunda tristeza, eu não queria estar ali, naquela situação. Eu só queria descansar. Eu queria uma pausa de tudo.

Se a vida te dá limões…

Eu aprendi que não existe bom e ruim. Existe apenas o que é mais ou menos útil em determinados momentos. As respostas, como dizem, estão todas dentro de você. Elas estão. E isso também significa que, em qualquer situação, algumas de suas respostas internas serão mais apropriadas do que outras. Tudo tem seu tempo e lugar. Tudo é uma parte valiosa da sua experiência.

Isso não significa que devemos tolerar estupro, assassinato ou violência. Mas essa atitude pode nos ajudar a entender essas ocorrências trágicas mais do que o julgamento. Por que algumas pessoas acham que a resposta certa é ferir alguém? Eu acho que esta linha de questionamento nos levará a algum lugar mais útil do que chamar essas pessoas de monstros sem coração. Isso pode realmente nos ajudar a trabalhar para resolver esses problemas sociais.

E aprendendo a olhar para nós mesmos em vez de perguntar: “Como posso me livrar dessa parte horrível de mim? Como posso parar de ter essa ou aquela atitude?”. Em vez disso podemos perguntar: “O que isso poderia significar? Quais necessidades eu poderia estar encontrando com minhas ações, e como eu poderia satisfazer essas necessidades de uma maneira que me servisse mais?”. Podemos nos concentrar em entender holisticamente por que algo aconteceu e nos permitir explorar novas e diferentes soluções para os enigmas de nossa existência.

Suponho que o que aprendi nos últimos três anos foi mais do que sobre amor próprio. Eu aprendi equilíbrio. Eu aprendi que a verdadeira felicidade é não ter medo das minhas emoções. Eu posso estar triste, brava, feliz. Eu posso sentir tudo e ainda assim não ficar presa nisso. Vou me deixar experimentar todas as emoções disponíveis e então, vou encontrar paz.

Em vez de tentar me concentrar no lado positivo, minha tarefa é me permitir ver todos os lados, remover meu julgamento sobre o que eles significam e tentar apreciar a complexidade de minhas experiências.

Esse é o poder que temos como seres humanos. Podemos nos deixar ficar curiosos em vez de sempre com medo. Podemos escolher trabalhar para entender quem somos, em vez de sempre tentar ser quem achamos que deveríamos ser. Podemos nos deixar ver o que está presente e não apenas o que estamos acostumados a ver. Podemos escolher entender melhor. Podemos escolher estar cientes.

Imagem: Fa Barboza – Unsplash

Carol Da Mata ou simplesmente Nina é formada em Relações Públicas pela PUC Minas. Mineiríssima de Sete Lagoas e atualmente se aventura morando nos EUA. De um humor ácido e irônico, temente a Deus, bem humorada (do jeito dela). Carol também é colunista no portal O Segredo.

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