GIRLS: nem tudo é um eterno final feliz

Depois de seis anos chega ao fim uma das séries que mudou completamente meu modo de ver e viver o mundo feminino. Se Sex and the City foi antropológico, GIRLS definitivamente foi épico, poiso elemento que mais marco nesta série foi a sinceridade com que os personagens foram evoluindo e regredindo ao mesmo tempo ao longo destes anos. Lena Dunhan, a produtora da série e uma das personagens principais, conseguiu reunir numa obra tudo o que as mulheres pensam e sentem de um jeito muito natural.

A nudez, algo trabalhado corriqueiramente na série, foi abordada de modo natural, sem polêmicas do tipo: como assim mamilos? Vaginas? Vaginas cabeludas? Espero, mulher que gosta de sexo e assume isso de uma forma tão natural como os homens? É estranho eu estar aqui escrevendo isso e falando o quanto é incrível ter uma série que aborde tudo isso de forma natural, como deveria ser, mas a gente bem sabe que no mundo em que vivemos estes e muitos assuntos são considerados tabus em nossa sociedade. Infelizmente. Então dá para entender o porque eu fiquei tão maravilhada em ver uma mulher dirigir e atuar num trabalho tão magnífico como em GIRLS? Se você assistiu concordará que sim.

Tudo bem que a maio parte das personagens foram construídas com características do tipo egoístas, individualistas, inseguras, neuróticas, insensíveis e muitas vezes estúpidas, mas o ponto é que, isto deu mais veracidade à história em si. Não faria o menor sentido se fosse diferente de como tudo se desenrolou.



You’re not a journalist Hannah. You’e a fuck writer

Não existem finais felizes em GIRLS, o que existe são finais condizentes com o perfil de cada personagem. Se você foi um telespectador bem observador com certeza reparou que o clímax estava direcionado para algo completamente inesperado no sentido de não ser um final óbvio. CLaro que não. Do contrário todo o projeto seria jogado no lixo e com certeza Lena trairia a confiança de seu público. Não entendo porque as pessoas insistem que tudo que a TV produz precisa ter um happy end, sendo que a finalidade da série era aproximar o público de uma vida real que acontece todos os dias em todas as partes do mundo. São mulheres comuns que sofrem contratempos, adversidades, preconceitos e mesmo assim lutam para ficar de pé, mesmo que isto custe uns bons litros de lágrimas e suor.

Jornalista, mineira de Belo Horizonte, 30 anos e apaixonada por cinema, livros, música e fotografia. Não sou de muita conversa, pois prefiro me expressar através de textos. Nascida na era da internet, blogo desde 2008. Para saber mais sobre minha história clique em Autora.

Liberte-se das convenções

Desde que éramos crianças aprendemos certas regras sociais de que devemos ou não fazer em relação às outras pessoas. Com o passar do tempo estas “regras” começam a nos incomodar a tal ponto que passamos a questiona-las. Isso demora muito para acontecer porque, quando somos novos demais não temos o discernimento sobre nada, não temos opinião formada e nem sabemos o que queremos da vida. Por isso a sociedade acha de extrema importância que comecemos a doutrinar nossas crianças, porque além de ser mais fácil “domar” um ser mais cru e puro, garantiremos futuros adultos mais obedientes. Pelo menos era o que eles pensavam.

Quantas vezes escutamos de nossos pais que não devemos mentir? Que a mentira é algo feio, que o papai do céu fica triste e faz com que as crianças “cresçam com as pernas curtas”, não é mesmo? Mas antes mesmo de tomarmos consciência do que é certo e errado, aprendemos que falar a verdade nem sempre é um bom negócio. Mas como assim? Que confusão seria isso na cabeça nossa, imagine de uma criança que hora escuta “diga apenas a verdade”ou “não diga sempre a verdade”. Um fato que me marcou bastante na minha infância foi justamente isso. No jardim de infância tive contato com crianças de todos os tipos, mais altas, gordas, inteligentes ou burras do que eu, para mim até ai tudo isso era muito natural.

Mas foi quando me deparei com uma aluna “diferente”. Era uma criança bonita, mas que nunca havia visto nada igual antes. Ela tinha longos cabelos negros e muito lisos, pele mais avermelhada e olhos grandes e escuros como a jabuticaba. Claro que sem filtro ou noção alguma e gozando de minha inocência eu a perguntei: Você é índia? Porque se parece muito com uma índia! Foi o suficiente para que a garota começasse a chorar escandalosamente e uma professora me chamar a atenção. Mais tarde quando tudo estava mais calmo a professora me disse pela primeira vez algo que me deixou muito perturbada, que era “você não pode sair falando as coisas assim, nem tudo o que vê, pense ou seja verdadeiro”. Claro que isso me deu um nó e tanto na minha cabeça.

Chegando em casa aprendi novamente a maior das lições que toda criança se beneficiará um dia, principalmente quando for adulta: meus pais me explicaram o seguinte, que há o momento certo para se dizer a verdade, de preferência para eles, e momentos em que devemos omitir a verdade, de preferência que não seja com eles. Com isso devemos aprender a manipular nossos sentimentos e aprender que o que conhecemos por verdade deve ser dita ou utilizada de modo que venha a nos beneficiar. Talvez este não seja um bom exemplo ou ensinamento que devamos seguir, mas infelizmente certas convenções da sociedade nos obrigam a fazer isso, mesmo que conscientemente.

Jornalista, mineira de Belo Horizonte, 30 anos e apaixonada por cinema, livros, música e fotografia. Não sou de muita conversa, pois prefiro me expressar através de textos. Nascida na era da internet, blogo desde 2008. Para saber mais sobre minha história clique em Autora.

A neurose nossa de cada dia

Hoje estava ouvindo algumas músicas da Clarice Falcão e acabei me deparando com a “Oitavo andar”. Talvez esta seja minha canção favorita dela, que basicamente fala sobre nossas neuroses sobre as pessoas que amamos e de nós mesmos. No intuito de destrinchar a fio toda a letra, resolvi analizar por estrofes (parágrafos) esta canção e refletir um pouco sobre o real significado da loucura pelo amor. Então vamos começar!

Quando eu te vi fechar a porta eu pensei em me atirar pela janela do 8º andar, onde a Dona Maria mora porque ela me adora e eu sempre posso entrar. Era bem o tempo de você chegar no T, olhar no espelho o seu cabelo, falar com o seu Zé e me ver caindo em cima de você, como uma bigorna cai em cima de um cartoon qualquer

A típica cena de uma mulher louca e cega de ciúmes que “se mata” por conta do outro na primeira, ou enésima, briga como forma de fazer aquela chantagem emocional barata. Um comportamento bem especifico de pessoas imaturas, mimadas e descontroladas.

E ai, só nos dois no chão frio, de conchinha bem no meio fio. No asfalto riscados de giz, imagina que cena feliz. Quando os paramédicos chegassem e os bombeiros retirassem nossos corpos do Leblon. A gente ia para o necrotério ficar brincando de sério deitadinhos no bem-bom. Cada um feito um picolé com a mesma etiqueta no pé. Na autópsia daria pra ver como eu só morri por você

erick-davila

ImagemErick Davila

Neste trecho pode-se ver nitidamente que o sentimento de possessividade de um personagem para o outro é tão forte que ele (a) seria bem capaz de não medir esforços para fazer com que a outra pessoa seja bastante infeliz separada dela. Esta afirmação eu baseio na passagem metafórica que Clarice usa como “e ai, nos dois no chão frio de conchinha bem no meio fio” que de uma certa forma bem cômica retrata uma cena bastante triste e corriqueira de nossa realidade, quando pessoas cometem assassinatos ou crimes passionais com tamanha brutalidade sem dar chance à outra pessoa se defender.

Quando eu te vi fechar a porta eu pensei em me atirar pela janela do 8° andar, em vez disso eu dei meia volta e comi uma torta inteira de amora no jantar

Enquanto isso, o desfecho da história se resume a um único gesto de egoísmo. Ai vocês vão pensar: mas ela deu uma grande demonstração de amor próprio, de maturidade e grandeza ao não se humilhar implorando por perdão ou “volta pra mim”. No entanto, o que posso concluir é que: por se tratar de uma história de conflito amoroso, de natureza obsessiva e extremamente passional, só posso concluir que tanto o narrador da história como o personagem em questão demonstram uma grande indiferença um pelo outro.

Esta foi a minha análise da música “Oitavo andar” e gostaria muito de saber o que vocês pensam sobre o tema abordado na letra ou se concordam ou não com minha tese. 🙂

Jornalista, mineira de Belo Horizonte, 30 anos e apaixonada por cinema, livros, música e fotografia. Não sou de muita conversa, pois prefiro me expressar através de textos. Nascida na era da internet, blogo desde 2008. Para saber mais sobre minha história clique em Autora.